por João Aníbal Henriques
Os denominados Potes Mouros,
situados na Freguesia de Alcobertas, no Concelho de Rio Maior, são um dos mais
extraordinários e enigmáticos sítios arqueológicos do Ribatejo. A estranheza
que produzem junto de quem os visita pela primeira vez, resulta do seu
enquadramento na paisagem, marcada pelo tom avermelhado do grés onde assentam,
mas também pela pouca informação existente sobre tão inesperado local.
Conhecidos um pouco por todo o
território Nacional, e normalmente associados a contextos arqueológicos datados do
período muçulmano, os Potes das Alcobertas são diferentes por se enquadrarem
num conjunto imenso, do qual hoje se conhecem actualmente apenas 35 mas que se sabe que ainda há
pouco tempo eram perto de 100, tendo sido progressivamente destruídos devido à
utilização do local como pedreira em meados do Século XX.
Sem espólio associado, o que
permitiria avançar com datações mais exactas, foram encontrados na década de 60
do século passado e imediatamente despertaram o interesse das comunidades envolventes.
Na correspondência camarária associada a este achado, os potes são atribuídos
ao período romano, embora sem que tal obedecesse a qualquer espécie de estudo
científico e/ou a conclusões preliminares que tivessem sido analisadas nessa
época. Pouco tempo depois, o arqueólogo Afonso do Paço chama-lhes pela primeira
vez 'silos', apercebendo-se da sua função de armazenamento de cereais, apontando
a existência de tampas que teriam como função selar cada um dos recipientes,
preservando os grãos da humidade ou da entrada de animais.
É também Afonso do Paço quem, em
estudos posteriormente realizados no local, avança com as primeiras teorias
relativas à sua morfologia tipicamente de origem muçulmana, ressalvando o facto
de se saber que os ditos silos teriam tido utilizados ininterrupta pelo menos
até ao Século XV. Mas aponta também, por ser importante na indefinição relativa
à cronologia do local, o facto de não ter sido encontrado qualquer espécie de
espólio associado, nem tão pouco restos de quaisquer espécies de cereais.
O carácter único do local, com os
seus túneis escavados no grés e com a estranha morfologia do espaço envolvente,
transformam aquele recanto numa espécie de magnífico cenário de um filme, no qual a memória
do local, cruzada com os laivos de uma história que provavelmente recua mais de
1000 anos no tempo, nos oferecem a possibilidade de efectivamente perceber como
era a subsistência ancestral no actual território Português.
Os Potes Mouros das Alcobertas,
que a Junta de Freguesia local e a Câmara Municipal de Rio Maior recentemente
recuperaram, estão hoje transformados num excelente espaço museológico. Os bons
acessos e as condições envolventes, são atractivo suficiente para uma visita
que vale a pena fazer!