Domingo, dia 18 de Junho de 2022,
foi um dia especial na Casa Sommer em Cascais. 25 anos depois da inauguração da
exposição sobre o seu avô na saudosa Universidade Moderna, em Lisboa, Maria da
Conceição Valdez Telles de Menezes apresentou publicamente o seu livro “Com
Timor no Coração”. A obra, que recupera as memórias familiares da autora,
cumpre o propósito principal de ultrapassar as garras inexoráveis do tempo,
trazendo para o presente os feitos alcançados pelos seus antepassados e recuperar
a capacidade que tiveram de honrar e respeitar as ligações profundas que criaram
com Timor e com os Timorenses. Com apresentação por João Aníbal Henriques,
Joaquim da Cunha Roberto e Pedro Teixeira da Mota, a cerimónia contou ainda com
a inesperada intervenção de Maria Ângela Carrascalão, antiga Ministra da Justiça
de Timor Lorosae, que trouxe à sala um laivo sentido de homenagem ao legado
deixado naquele território pelos Portugueses. Com este fechar de ciclo,
Conceição Valdez eterniza a memória dos seus ancestrais, perpectuando no tempo
e ao longo das próximas gerações a imensa herança de memória que recebeu dos
seus avoengos.
Blog sobre Portugal, os Portugueses, a sua História, e a realidade política, económica, cultural e social Nacional.
sábado
Conceição Valdez Telles de Menezes com Timor no Coração
sexta-feira
A Ermida de Nossa Senhora da Cabeça em Évora
por João Aníbal Henriques
Existem espaços que se impõem na
paisagem. Na maior parte das vezes é a vetustez magnífica da sua fachada ou a
opulência da sua decoração que determinam essa capacidade de adaptar a
envolvência à sua própria personalidade.
Nas vilas e cidades históricas
portuguesas, quase sempre resultantes de um vínculo de índole religiosa que foi
determinante no seu nascimento e na sua consolidação no seio da comunidade humana
que as habitou, são os espaços sagrados que, através do impacto que têm na
construção identitária da localidade, assumem este papel de cadinho maior a partir
do qual se organiza tudo o resto.
Mas não é nada disto que acontece
no final da Rua Mendo Estevães, em pleno centro história da mítica Cidade de
Évora. O templo, enganosamente intitulado como “ermida”, ou seja, apontando
para uma origem num ermo remoto e dado principalmente à interioridade meditativa
humilde e despojada, é um espaço de aspecto robusto e solidamente construído
dentro do velho casco urbano.
No entanto, nem a monumentalidade
da sua construção, nem também o facto de recuperar a sacralidade ancestral que
já noutras eras prosperava naquele local, foram suficientes para o impor na
paisagem, antes passando quase despercebido perante quem por ali deambula ao
sabor dos calores tórridos das tardes estivais.
A Ermida de Nossa Senhora da
Cabeça foi consagrada em 1681 e, nessa altura, conheceu um período de aparente
grande pujança e prosperidade. A robustez monumental da sua galilé, reforçada
por eventuais estruturas de apoio das quais subsistem vestígios nas pedras
velhas que suportam o seu terraço, foi mais tarde complementada com um
magnífico painel de azulejos dedicado ao Coroamento da Virgem, que complementa
os painéis azulejares da autoria de António de Oliveira Bernardes que decoram o
seu interior.
A inovação a Nossa Senhora da
Cabeça, de origem espanhola, está profundamente arreigada na piedade popular.
Como é comum neste tipo de situações, um ingénuo pastor que calcorreava os
ermos da Serra Morena, na Andaluzia, terá ouvido nos desérticos montes por onde
andava com o seu rebanho, o som de uma campainha que o parecia chamar. Seguindo
esse ruído, entrou numa gruta situada na cabeça de um morro no fundo da qual
estava uma formosíssima imagem de Nossa Senhora profusamente iluminada. Ajoelhando-se,
o pastor questionou a figura sobre a razão de ser de tal milagre. E Nossa
Senhora, com uma voz suave e envolvente definida pela sua geração sagrada,
pediu-lhe que contasse nas redondezas a natureza deste milagre, construindo no
local uma ermida em sua memória onde todos pudessem ir rezar.
Na ermida eborense, lançando
sobre a envolvente duas sombras cruas, a representação do Sol e da Lua reforçam
a sua significação milenar, acentuando a dicotomia entre as sombras e a luz e comprovando
a sua origem ancestral. Embora não se sabia exactamente a data de fundação da
ermida, e assumindo-se que a consagração já mencionada é somente um dos momentos
da sua mais longa existência, pressupõe-se que a sua origem se perca na sacralidade
ancestral associada aos cultos longínquos que foram professados naquele mesmo
espaço.
E a apontar nesse sentido estão os vários materiais reutilizados na actual construção, comprovando que outros edifícios (ou diferentes formulações do mesmo) terão co-existido naquele lugar ao longo dos séculos.
Discreta na sua implantação
urbana, a Ermida de Nossa Senhora da Cabeça é um magnífico exemplo da arquitectura
sagrada de Portugal, mostrando que as principais devoções, quase todas resultados
directo da evolução do pensamento e da Fé nas comunidades que as professaram, são
superiores aos séculos, Às épocas e às eras, impondo-se no imaginário popular
como alicerce principal da sua religiosidade.
E, se por fora parece mera capela
perdida no seio da multiplicidade de tempos semelhantes que profusamente
enxameiam as ruas de Évora, por dentro a qualidade da sua decoração demonstra
bem que era espaço de primeira importância para as gentes do local.
segunda-feira
Nossa Senhora da Rocha em Linda-a-Pastora
por João Aníbal Henriques
Por detrás das lendas, muitas
vezes escondendo sub-repticiamente os laivos maiores da identidade de um local,
estão factos da História que marcam de forma efectiva o sentimento de cidadania
e promovem a coesão que é determinante para que as comunidades se imponham
equilibradas e saudáveis a bem de todos os que dela fazem parte integrante.
É o que acontece em
Linda-a-Pastora, no Concelho de Oeiras, onde a memória colectiva define a
Senhora da Rocha como plataforma potenciadora daquele agregado populacional, unido
sempre em torno da loca (ou gruta) onde o sagrado e o profano se cruzam a
partir de uma devoção sentida à imagem maior da Virgem Maria no seu orago
associado aos mistérios da conceição.
Reza a lenda que em 1822, num
mítico dia 28 de Maio, um grupo de crianças locais deambulava pelos campos
junto à Ribeira do Jamor em busca de coelhos que lhes fugiam através dos matos
que enchiam este local. Um dos animais, despertando a cobiça dos fedelhos, terá
ousadamente entrado numa lura de difícil acesso e os rapazes, acicatados pelo
desejo de o caçar, entraram atrás dele, desviando os arbustos e os silvados.
Para sua grande surpresa, porque
rapidamente se viram envolvidos pelo negrume da escuridão, perceberam que
estavam dentro de uma gruta desconhecida e que à sua volta, num registo de
terror que lhes potenciava o medo, um grande conjunto de ossadas humanas os
contemplava da lonjura das suas vidas ancestrais.
Incrédulos com o achado, e interpretando os ossos que viam como uma alucinação, resolveram trazer alguns para a luz do dia e levaram-nos para as suas casas contando a sua aventura aos aldeãos. Como ninguém acreditou neles, organizou-se então uma nova visita ao espaço com a presença dos adultos que viviam nesse lugar e, para grande surpresa de todos, não só confirmaram o relato das crianças como também encontraram, singelamente perdida no meio das ossadas, uma pequeníssima imagem de Nossa Senhora feita em barro, que imediatamente interpretaram como um sinal da presença divina naquele lugar especial.
Ajoelhando-se à sua frente em
profunda devoção, os fiéis que encontraram a imagem da Virgem Maria deparam-se
com novo mistério. Repentinamente, sem que ninguém desse conta disso, a imagem
desaparece da sua vista, como se tivesse fugido deles e desaparecesse de forma
inesperada. Alvoroçados, procurando perceber o que aconteceu, os devotos acabam
por encontrar a imagem pousada numa oliveira situada junto à porta da velha
gruta oeirense, interpretando este sinal como sendo a Providência Divina a
comunicar com eles.
O sucesso desta história, com
ecos insuspeitos que se estenderam até à capital, levaram o Rei Dom João VI a
interessar-se pelo acontecido. Procurando controlar o fervor popular e ao mesmo
tempo tentando recentrar o potencial da devoção na Sé de Lisboa, o monarca
manda transferir a imagem para a capital. Temendo a sublevação popular, são
enviadas tropas para acompanhar o processo mas a população, provavelmente
condicionada pela presença sagrada que emanava da imagem, manteve a compostura
e acompanhou o andar ao longo de todo o percurso.
Precisamente 71 anos depois da
aparição da imagem, agora no mesmo dia 28 de Maio, mas do ano de 1893,
conclui-se enfim a obra de construção de uma capela no local onde outrora
estava a oliveira onde a imagem reapareceu. Com a presença da Rainha Dona
Amélia, que promoveu uma devoção que havia marcado anteriormente os Reis Dom
Miguel, Dom Pedro V e Dom Luís I, a consagração do espaço acontece com toda a
pompa e circunstância marcando o regresso da singela imagem de barro a terras de
Oeiras.
A devoção simbólica a Nossa
Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, é um dos mais importantes
apoios da portugalidade. Transversal a todo o território, a todas as eras da
História e a todas as classes sociais e culturais de Portugal, esta ligação
perene entre os portugueses e este dogma tardio da Igreja Católica é
verdadeiramente ancestral, provavelmente antecedendo historicamente o próprio
nascimento real da Mãe de Jesus Cristo.
Os cultos ancestrais da
portugalidade, eivados de um apelo permanente à natureza e ao mito da Deusa-Mãe
adaptaram-se escatologicamente à ideia do desejado, mito que promove o apelo
imaginário a um quadro de futuro que mitiga as maleitas do presente e transfere
divinamente para a Mãe Primordial o ónus do acompanhamento e protecção pela
qual sempre se ansiou em Portugal.
Maria, a Virgem Santíssima que
alquimicamente transmuta a matéria, conjugando os sonhos da comunidade com as
oportunidades que o real vai oferecendo, é devoção profundamente entranhada na
Portugalidade. É ela quem determina a construção da escada que salvificamente
transporta os seres viventes até ao Céu, sendo por isso mesmo a grande
padroeira das causas maiores que se prendem com as angústias determinadas pela
existência.
A Senhora da Conceição, que na
gruta da Rocha, junto à Ribeira do Jamor, foi sempre a guardiã dos restos
humanos dos muitos que por ali viveram as suas vidas ao longo dos séculos,
oferece uma réstea de luz para iluminar a escuridão que esta nossa existência
fugaz sempre acarreta. Do fundo da caverna, espaço privilegiado para a
introspecção e para o pensamento, a Mãe Celeste prepara o neófito para o
regresso à luz do Sol e à terra. Até porque é lá dentro, naquele útero
primordial onde a vida se estabelece, que o espírito se prepara para o desafio
enorme que representa o seu regresso à terra.
Em Linda-a-Pastora, envolvida
pelo carácter idílico de um espaço onde naturalmente a água do Jamor e o verde
da floresta original se conjugavam para criar um cenário úbere e pleno de
fertilidade, é nesta ponte que se faz entre as crenças e a Fé da comunidade e
os desafios próprios do quotidiano e da vida, que se estebelecem os laços
essenciais de um espírito de cidadania participada, coerente e significante.
Nossa Senhora da Rocha foi, desde
a sua origem, fenómeno de Fé. Movimentou as gentes dos arredores e foi pedra
angular na criação da matriz identitária de Linda-a-Pastora e do Município de
Oeiras.
quinta-feira
O Solar dos Falcões em Cascais
por João Aníbal Henriques
Marcada pelo ritmo austero da sua
fachada, o Solar dos Falcões, situado no coração do núcleo urbano consolidado
de Cascais, é um dos mais importantes e significantes edifícios da vila. Tendo
sobrevivido ao grande terramoto de 1755, quando os danos que sofreu não
impediram que tenha passado a ser utilizado como substituto da igreja paroquial
que, ali mesmo ao lado, havia sido bastante danificada pelo cataclismo, é um
dos mais antigos edifícios de Cascais, carregando consigo informações
essenciais para compreendermos como era a vila antes das grandes transformações
ocorridas a partir de 1870 quando Dom Luís I escolheu este local como estância
de veraneio.
De salientar, até porque é bem
demonstrativo desta importância, o papel que teve Manuel Rodrigues de Lima, o
arrematando da hasta pública que vendeu esta casa e a capela anexa em 1864, na
concretização desse projecto de trazer a corte para a vila. Esse seu
proprietário, num acto inusitado de entrega ao bem comum, constrói no terreno
do velho solar um magnífico teatro dedicado a Gil Vicente que, na magnificência
do seu projecto, contrasta de forma evidente com a simplicidade chã que
caracterizava Cascais naquela época. E, despertando nos seus contemporâneos a
estranheza por tão grandiosa obra num espaço tão desinteressante, depressa se
percebe que a mesma fazia já parte de um plano maior engendrado pelas mais
importantes e influentes personalidades da vila, das quais faziam parte o dito
Manuel Rodrigues de Lima mas também João de Freitas Reis e, principalmente, Joaquim
António Velez Barreiros, Visconde de Nossa Senhora da Luz, que com um espírito
muito empreendedor foram dotando a vila dos equipamentos necessários para que
ela pudesse vir a ser escolhida pelo monarca como destino para o final das suas
férias de Verão.
O Solar dos Falcões e a Capela de
Nossa Senhora da Nazaré, em conjunto com o que resta do seu antigo jardim, apresentam
a formulação urbanística que definiu o nascimento e crescimento do casco antigo
da Vila de Cascais. A simplicidade dos volumes, contrastando de forma evidente
com a riqueza da sua decoração interior, é demonstrativa da influência que teve
a arquitectura popular tradicional da região saloia naquilo que foi a
consolidação da vila enquanto cerne de afirmação do poder municipal.
O provável instituidor da capela
e possível construtor do solar, terá sido Bernardino Falcão Pereira e sua
mulher Antónia Felícia Gameiro Feyo que, algures ainda no Século XVII,
assumiram este espaço como morada para a família e como jazigo privado. Foram eles quem, depois de um processo de
instalação no território municipal muito marcado ainda pela exploração dos
recursos primários da vila, deram origem a uma linhagem familiar que foi
determinante na recriação do Cascais da Corte cujas repercussões se sentiram até
à actualidade. Pedro Falcão, o saudoso autor da mítica obra “Cascais Menino”
era um dos orgulhosos descendentes destes primeiros Falcões, fazendo eco deste
legado nas suas obras e nos vários momentos que determinam a sua profusa vida
de cascalense.
Em termos artísticos o Solar dos
Falcões possui um importante conjunto azulejar que, com data de 1729, foi
pintado pelo Mestre António de Oliveira Bernardes e centra-se numa pintura
figurativa de Nossa Senhora da Nazaré a ressuscitar um homem. Os símbolos
marianos, que enchem a Capela-Mor, acompanham várias figuras infantis com
ligação directa às litanias de Maria, compondo um quadro que complementa de
forma evidente a abordagem mariana existente no vizinho Convento de Nossa
Senhora da Piedade e o dogmatismo católico que caracteriza a abordagem
pragmática expressa de forma visual na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da
Assunção situada ali mesmo ao lado.
Em termos históricos, e para além
da forma como o conjunto monumental evoluiu ao longo da sua longa existência,
importa sublinhar a provável utilização desta casa para a assinatura da chamada
“Convenção de Sintra”, na qual o General Francês Junot assina a sua rendição
perante as tropas inglesas que na mesma altura estavam aquarteladas no edifício
dos Condes da Guarda, actuais Paços do Concelho. Importante é ainda, entre 1741
e 1753, a breve ocupação do imóvel por padres da Ordem de São Francisco de
Paula que pretendiam utilizar a casa para ali instalar o seu convento em
Cascais, e do qual desistiram depois de se aperceberem da existência de
condicionantes à posse plena da propriedade.
Estando a capela classificada
desde 1978 como Imóvel de Interesse Público, e o solar como de Interesse
Municipal desde 2009, o conjunto composto pelos dois monumentos faz parte
integrante da matriz identitária de Cascais e recupera os valores mais
importantes da génese de índole rural desta vila piscatória.
Integrada no quarteirão onde o
Teatro Gil Vicente impera visualmente, dando o mote para que se perceba como
evoluiu historicamente a vila desde meados do Século XIX até à actualidade, o
Solar dos Falcões e a Capela de Nossa Senhora da Nazaré serão porventura as
mais abrangentes peças do património cascalense.
sexta-feira
O Milagre Salgado de Nossa Senhora da Anunciada em Setúbal
por João Aníbal Henriques
Com uma História única que
resulta de um conjunto extraordinário de acasos, a Cidade de Setúbal mistura as
suas origens com a lenda, recriando um cenário onde o sonho e a realidade dão
origem a uma palete de cores que condiciona a realidade e promove uma forma
alternativa de ser, de estar e de viver a cidade.
A Igreja de Nossa Senhora da
Anunciada é um exemplo paradigmático desta realidade e, traduzindo de forma
muito eficaz a génese histórica de Setúbal, funciona aqui como uma espécie de máquina
do tempo que nos permite regredir ao longo de muitas gerações para podermos
perceber quais foram e como foram as várias eras que definiram a cidade que
hoje encontramos.
Quando a freguesia da Anunciada
foi criada, em pleno Século XVI, já a igreja existia e era de tal forma velha e
impactante que foi imediatamente transformada em Igreja Matriz. A sua
importância no casco antigo da cidade, provavelmente porque as suas origens sagradas
deverão ser anteriores à própria cristianização daquele território, foi
determinante na forma como urbanisticamente se construíram as casas, as ruas e se
definiriam os equilíbrios sociais entre Setúbal e as suas gentes.
Em termos arquitectónicos, a
Igreja de Nossa Senhora da Anunciada, com novo orago depois da reconstrução que
sofreu em virtude dos estragos provocados pelo grande terramoto de 1755 e a
partir daí consagrada à devoção do Sagrado Coração de Jesus, apresenta hoje
traços neoclássicos, com decoração barroca, que escondem a sua origem
primitiva.
Quando, ainda no Século XIII, uma
imagem de Nossa Senhora apareceu a uma pobre mulher que por ali circulava,
pedindo-lhe que fosse constituída uma confraria em seu nome, e que a partir
dela se instalasse naquele lugar um hospital para apoiar os mais necessitados, já
Setúbal possuía mais de 1000 anos de uma História pujante. Pelo mesmo desde a
ocupação romana, quando naquela zona se instalaram várias fábricas de salga e
conserva de peixe que era exportado para a Península Itálica.
A lenda de Nossa Senhora da
Anunciada de Setúbal tem, também ela, alguma coisa de estranho. É que, ao
contrário do que acontece com outras aparições congéneres, principalmente
aquelas que se prendem com a alimentação das populações que morriam à fome e
que geralmente se consagram a Nossa Senhora da Conceição, a história que se
esconde por detrás desta lenda prende-se com o fogo e com o poder dissuasor de
Nossa Senhora relativamente ao elemento destruir que ele representa.
Enquanto circulava pela praia à
cata de lenha para a sua fogueira, a pobre velha que dá corpo à lenda terá
trazido um feixe de madeiras que deitou imediatamente para a sua fogueira. Mas,
poara seu grande espanto, um pequenbo toro de madeira dos que ela tinha
apanhado junto do rio, saltava teimosamente para fora do fogo de cada vez que
ela teimava em pô-lo lá dentro. E a velha alertada por tão estranho
acontecimento, terá olhado com atenção para o madeiro e percebido que era uma
pequeníssima imagem da Virgem Maria que dessa forma parecia comunicar com ela.
Fácil se torna perceber, desta
maneira, que tal acontecimento causou alvoroço na cidade. E a imagem de Nossa
Senhora, anunciada pela velha a toda a gente como milagre maior que lhe
aconteceu, acabou por gerar uma devoção que rapidamente se alastrou pelas
gentes de Setúbal, potenciando a criação da confraria e, mais tarde, a
construção da igreja e do seu vetusto hospital.
Nas imediações desta igreja, como
se de um farol se tratasse, a vida seguia o seu rumo ligada às artes do mar e à
exploração do sal que era riqueza maior naquele Portugal.
O sal de Setúbal, pedra angular
da criação e desenvolvimento da cidade, era assim sustento e vida que dali se espalhava
por todo o império romano, num movimento porventura milagroso do qual derivava
uma forma alternativa de ser e de estar.
Provavelmente por esse motivo,
quando a Ordem de Santiago se instalou em Alcácer-do-Sal e em Palmela, Setúbal
conheceu o seu grande impulso populacional, para ali sendo enviados os recursos
que permitiam aproveitar condignamente e rentabilizar a imensa riqueza que lhe
era fornecida pelo Rio Sado.
Nossa Senhora Anunciada era,
enfim, o motor a partir do qual se organizavam todos os importantes pilares
definidores da vida na cidade e onde os mais necessitados encontravam o amparo
de que precisavam nos momentos de maior aflição.
Olhando para a História e para a
lenda que a acompanha, fácil se torna perceber o papel determinante que o dito
milagre tem na formatação identitária de Setúbal. E, também, a importância que
este espaço sagrado teve, tem e terá sempre na determinação daquilo que é a
identidade arreigada desta velhíssima capital do sal.
Como disse Jesus: “Vós sois o sal
da terra”. E em Setúbal, este sal que é vida, foi anunciado divinamente neste
local!
quinta-feira
A Igreja de Santa Maria da Graça em Setúbal
por João Aníbal Henriques
A cidade de Setúbal, com a sua
origem provavelmente pré-histórica, tem uma relação directa e permanente com o
Rio Sado. O alimento das suas gentes, bem como a prodigalidade dos seus
engenhos, ofereciam condições extraordinárias de vida aos primeiros
assentamentos humanos que escolheram este local para viver. Por esse motivo, e
também porque o bem-estar geral providenciado pela abundância de recursos não trazia
grandes exigências a quem ali morava, o burgo foi crescendo ao sabor das
necessidades quotidianas, sem grande ensejo de uma pujança que de nada servia
nem acrescentava absolutamente nada ao esforço permanente de angariação de
sustento que determinava as leis da vida.
A invocação a Nossa Senhora das
Graças, provavelmente de origem muito mais recente, é ela própria tradutora
desta ligação milenar que determina a intercessão da Virgem Maria no dia-a-dia
dos habitantes. Na sua faceta de defensora dos seus filhos humanos, a Senhora
das Graças é a personificação adaptada da Imaculada Conceição de Maria, a Nossa
Senhora da Conceição que é simultaneamente Protectora e Rainha de Portugal. Concebida
sem pecado, a futura Mãe de Deus – e por extensão mãe divina de todos os homens
– faz parte da matriz identitária da grande maioria das cidades portuguesas,
carregando consigo um laivo de Fé que é transversal e que, até em última
instância, justifica a independência política e o sucesso tantas vezes
alcançado por Portugal.
No caso de Setúbal, em
particular, a actual Igreja de Santa Maria da Graça é o resultado da
reconstrução concretizada no Século XVI com traço do Arquitecto António
Rodrigues. A magnanimidade do projecto, assente na força telúrica emprestada à
sua fachada maneirista pelas duas enormes torres sineiras, é demonstrativa da
pujança que tinha a sociedade sadina durante esse período áureo dos
descobrimentos portugueses, nos quais o porto de Setúbal, bem como a linha de
navegabilidade que o Sado definia e que era essencial para a ligação aos
mananciais agrícolas daquela zona do Alentejo (veja-se p.e. a História da
Herdade da Palma em Alcácer do Sal), acabavam por ser determinantes na
capacidade de produzir e de comercializar que eram essenciais para suportar estruturalmente
a estrutura dinâmica das próprias descobertas.
Digna de uma nota especial, não
só pelo impacto que tem neste projecto, mas também porque simbolicamente ajuda
a perceber essa situação verdadeiramente extraordinária no contexto do que foi
Setúbal durante esse período virtuoso da História de Portugal, é a intervenção
de Mestre José Rodrigues Ramalho na criação da Capela-Mor da igreja, em talha
dourada, que em 1697 foi acrescentada ao templo original.
Nas suas origens documentalmente
mais antigas, até porque provavelmente existirão pré-existências neste espaço
que permitirão estender a sacralidade do lugar a mais alguns séculos, a igreja
original que antecedeu estruturalmente a actual terá sido sagrada no dia de
Nossa Senhora da Assunção no ano de 1245.
Em plena Idade Média, terá sido a
Igreja de Santa Maria da Graça a definir o perímetro urbanístico da cidade,
dela dependendo o surgimento dos primeiros bairros que estenderão a ocupação
urbana até ao local onde actualmente se encontra a Praça Bocage, a Poente deste
núcleo inicial.
Magnífica no seu enquadramento
simbólico, e eminentemente tradutora da significação mais profunda da Cidade de
Setúbal no contexto nacional, a Igreja de Santa Maria da Graça é hoje um
testemunho muito importante que nos permite compreender melhor a interacção
existente entre os recursos disponíveis para uma determinada comunidade humana
e a consolidação da sua estruturação identitária a partir de uma concepção do
sagrado que lhe define os contornos mais profundos.
As sombras impostas à sua volta
pela altura determinada pelas suas torres, ainda hoje significa para os setubalenses
a cobertura provida pelo manto de Nossa Senhora enquanto padroeira maior da
cidade e de Portugal.
O Edifício dos SMAS de Cascais
por João Aníbal Henriques
Actualmente devoluto, depois de em 2012 os serviços das Águas de Cascais terem mudado a sua sede para a Aldeia de Juso, o edifício dos SMAS, situado na Avenida do Ultramar, mesmo no coração da Vila de Cascais, é um dos mais interessantes exemplos da forma como a arquitectura e o urbanismo acompanharam o pujante desenvolvimento do concelho ao longo de toda a primeira metade do Século XX.
A escolha do arquitecto que o
projectou denota igualmente a forma intencional como a expressão urbana de
Cascais foi adaptada para incorporar os valores que o Estado havia definido
como essenciais para a definição do novo Portugal. Joaquim Ferreira (1911-1966),
um dos mais eminentes membros das Belas Artes, defendia uma cisão programática
com as perspectivas arquitectónicas vigentes, criticando a visão paradigmática
da denominada “Casas Portuguesa” e assumindo-se frontalmente contrário àquilo
que ele pragmaticamente chama o “Português Suave”.
E se em termos formais tudo é
novo na obra de Joaquim Ferreira, em linha com o modernismo que
transversalmente alterou a praxis das cidades portuguesas em meados do século
passado, o edifício dos SMAS de Cascais apresenta inovações igualmente ao nível
das técnicas e dos materiais utilizados, recriando um palco de linearidade
futurista onde a experimentação acabou por se transformar numa espécie de
escola com resultados que se espraiam até à actualidade.
O projecto original deste
edifício, assente na eminente funcionalidade programática para o qual ele foi pensado,
repercute a linearidade da abordagem que Joaquim Ferreira já havia intentado no
projecto do carismático edifício do Cinema São José, junto à Ribeira das
Vinhas, que veio substituir as instalações novecentistas da antiga fábrica de
conservas de Cascais.
O anteprojecto do edifício, datado de 1961, havia sido previamente aprovado pelo Secretário de Estado das Obras Públicas e foi inaugurado, com pompa e muita circunstância, em 1965, de forma integrada no importante programa comemorativo do 600º aniversário da autonomia de Cascais. A partir dessa altura, com o alto patrocínio das mais altas entidades estatais, torna-se o símbolo funcional de um Cascais assente na visão progressista e moderna que há-de marcar o cunho do município durante mais de quarenta anos.
Depois deste edifício, quase
todas as obras públicas concretizadas em Cascais seguiram este exemplo de
maturação desta linha arquitectónica despojada de revivalismos, reformatando a
imagem da vila e dotando-a de renovadas condições para assumir o carácter cosmopolita
muito marcante que tornou possível uma onda de progresso ímpar afectando de
forma positiva e linear quase todas as áreas do território municipal.
Os homens de Cascais que
governaram a terra nesta época eram gente empreendedora, com uma capacidade de
visão estratégica extraordinária e uma abertura de espírito sagaz que lhes
permitiu alcançar um grau de sucesso nunca antes visto no concelho. E o Edifício
dos SMAS, respondendo arquitectonicamente a esse desafio, serviu como
comprovativo dessa situação perante a sociedade e a generalidade dos
portugueses.
quarta-feira
A Igreja dos Navegantes em Cascais
por João Aníbal Henriques
Marcante na paisagem cénica de
Cascais, com os seus altivos torreões a imporem-se na paisagem sobre o caso
antigo da vila, a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes (também designada como
de São Pedro Gonçalves Telmo ou de Nossa Senhora dos Prazeres) é um dos mais enigmáticos
segredos de Cascais.
Nada se sabendo de certo sobre a
sua origem, presume-se que a Igreja dos Navegantes tenha sido construída
algures no Século XVI por iniciativa dos homens do mar de Cascais. Isto mesmo é
alegado por eles quando, nessa mesma altura, através dos seus representantes legais,
apelam directamente a Roma e ao Papa queixando-se dos abusos que sofriam por parte
da Igreja local.
Diziam eles que as multas de que
eram alvo, e que derivavam das faltas às presenças obrigatórias nas Missas e ao
trabalho que faziam ao Domingo, se deviam à necessidade efectiva de angariarem
o seu sustento. E que, em contrapartida, haviam construído a suas custas dois
conventos, um no Estoril e outro em Cascais, um hospício e duas igrejas (a de
Nossa Senhora dos Prazeres e a da Ressurreição de Cristo que caiu com o Terramoto
de 1755).
Terá sido este contacto, aliás, o
que motivou o Papa Paulo V a conceder a autorização para se pescar aos Domingos
e nos dias santos, na perspectiva de que os lucros auferidos nessas ocasiões se
destinavam exclusivamente à construção das igrejas e a consolidar o processo de
canonização de Frei Pedro Gonçalves Telmo, futuro padroeiro dos pescadores de
Cascais.
A única certeza que existe é que
a igreja sofreu uma intervenção que visou a sua reconstrução em 1729, conforme
o atesta a data dos seus painéis de azulejos, estando ainda in completa em 1755
quando o terramoto novamente lhe abalou os alicerces.
Em termos estéticos, a Igreja dos
Navegantes que agora temos, que resultou do segundo processo reconstrutivo
iniciado em finais do Século XVIII, e que só foi concluído em 1942 quando foram
colocados os dois torreões, situa-se na transição entre o período maneirista e
proto-barroco, apresentando como ponto de sublinhado interesse a sua rara planta
oitravada que Raquel Henriques da Silva, a grande especialista nesta matéria,
considera que “exemplifica o gosto de inovação formal característico daquele
período”.
O facto de ter ficado inacabada,
sem os detalhes decorativos e estéticos característicos do barroco cascalense,
sublinham o seu interesse que, de acordo com a historiadora já referida,
depende muito mais do jogo de luz que a sua formulação arquitectónica propicia,
do que propriamente do formalismo regular que caracteriza outros monumentos
idênticos desta mesma época.
O seu carácter diferenciador,
provavelmente resultante da influência dos frades de Nossa Senhora da Piedade,
que orientaram os homens do mar no seu projecto de erguer a igreja, transforma
a Igreja dos navegantes num dos mais preciosos monumentos do Património religioso
Cascalense.
quinta-feira
O Espigão das Ruivas e o Porto de Touro na Sacralidade Devocional de Cascais
por João Aníbal Henriques
Existem espaços que,
independentemente da sua História e/ou da sua monumentalidade, apresentam uma
força extraordinária no imaginário colectivo das comunidades. Normalmente,
quando assim acontece, a sua História efectiva, baseada nos factos
incontornáveis ditados pela documentação existente ou pelos vestígios que a
arqueologia recuperou, mistura-se com os mitos que resultam do impacto que o
dito espaço tem nas gerações que se vão multiplicando em seu torno.
A sacralidade destes espaços,
constrói-se a partir da interpretação que se faz deles. E as comunidades que os
vivem, condicionando-os às suas necessidades e ensejos, traduzem normalmente
nessas abordagens os resquícios mais profundos da sua própria existência…
O mítico Espigão das Ruivas, situado no limite Ocidental do território municipal de Cascais, em local próximo do Cabo da Roca e em estricta ligação física ao Rio de Touro, que ali desagua misturando-se com o próprio Oceano, é exemplo paradigmático desta realidade, impondo-se no imaginário das populações e reformatando a sua relação com a Serra de Sintra e o com o Atlântico.
O seu envolvimento plástico e
cénico, com as arribas verdejantes ao fundo e em contraste profundo com o azul
do mar, mistura-se amiúde com o vento forte que condiciona o acesso e impõe
respeito a quem o quer visitar. Mítico, porque inacessível ao comum dos
mortais, apresenta características morfológicas especiais que adensam o
mistério e promovem essa perspectiva quase irreal de um sonho inconcretizado.
As principais linhas de interpretação
do Espigão das Ruivas passam pelo mais básico alinhamento das reais
necessidades da vida das suas gentes com os impressivos resquícios das
vivências passadas. Os rituais da fertilidade, ancestrais na sua relação com a
própria sobrevivência da espécie humana, conjugam-se aqui de forma telúrica com
o cruzamento entre as águas do Rio Touro. Oriundo da Serra de Sintra, mais
propriamente do planalto de São Saturnino, a Poente da lendária Peninha, onde
António Carvalho Monteiro, conhecido como Monteiro dos Milhões, construiu o seu
eremitério sagrado sobre as penhas velhas da Senhora da Conceição, o ribeiro
desce a encosta de forma livre até se cruzar neste espaço quase inacessível,
com as tradições lunares das Ruivas, espécie de ninfas que aproveitam a solidão
daquele espaço para por ali prosperar.
A linha de abordagem positiva,
aqui consignada à figura mitológica do touro, sinónimo de força, de pujança viril
e de masculinidade, junta-se à linha matriarcal e feminina que a Lua lhe dá. E
desta ligação natural, simbolicamente traçando o contraste de forças
aparentemente antagónicas mas complementares, resulta o movimento que origina a
própria vida.
Com base neste pressuposto, e não
se sabendo com exactidão qual foi a origem efectiva da velha estrutura pétrea
existente no topo da rocha e com vista directa para a praia, fácil se torna
perceber a interpretação linear que dele faz a comunidade. Se a isto juntarmos
a longevidade desta situação, porque os vestígios que foram encontrados junto à
dita estrutura datam da Idade do Ferro, natural se torna perceber que a
extrapolação dos factos converge para aquilo que define as angústias maiores da
sobrevivência daqueles que por ali passam.
Ano após ano: século após século;
e milénio após milénio, vai-se aprofundando a convicção de que o Espigão das
Ruivas é o espaço onde se encontram as respostas efectivas às nossas principais
necessidades. E na perspectiva mais devocional do termo, resulta natural o
processo de sacralização de um espaço que se presta a uma vivência onde a
simbologia impera e que dá sentido a cada um dos detalhes que compõem a nossa
existência sagrada.
No choque de contrastes quase de
índole eléctrica que este espaço gera, cria-se uma janela de esperança que
ajuda de sobremaneira a definir formas alternativas de existência.
E hoje, seja para um passeio
deslumbrante através de uma das paisagens mais marcantes de Cascais, ou como
mote para uma introspectiva análise recatadamente elaborada a partir de um
qualquer anseio, a descida ao Porto de Touro, conjugado com a subida ao Espigão
das Ruivas, oferece a quem a faz uma perspectiva diferente do Cascais onde
vivemos.
Qualquer que seja o mote, o
ensejo, a crença, a fé ou a determinação de quem o faz, este é um passeio que
vale mesmo a pena!
terça-feira
O Alto de Santa Eufémia em Sintra
por João Aníbal Henriques
Envolvida nas brumas
do mito e de uma sacralidade mística que dá forma à própria identidade de
Sintra, o Alto de Santa Eufémia, no pico nascente da Serra Sagrada, é um dos
mais impressivos recantos daquela montanha ancestral. Os seus seis mil anos de
História correm ao sabor de uma vivência sempre muito significante e integram
os laivos primordiais que dão forma à essência espiritual de Sintra.
Com uma vivência histórica
comprovada desde o 4º milénio A.C., o Alto de Santa Eufémia é tradicionalmente
considerado como o berço de Sintra. O povoado neolítico ali existente,
aproveitando e adaptando-se ao binómio formado pela riqueza do seu manancial de
águas e pela situação estratégica do seu plano elevado em relação à envolvência,
foi desde a sua origem um espaço fundamental para a definição daquilo que virá
a ser a ocupação humana em toda a região Ocidental da península Ibérica.
De acordo com Vítor Manuel
Adrião, investigador e historiador especialista na História de Sintra, as
origens do culto a Santa Eufémia perdem-se nas origens do próprio tempo,
estando relacionadas de forma directa com os cultos de fertilidade associados
com a água, num apelo ancestral à Deusa-Mãe, Eufémia, origem simbólica de toda
a ritualística Cristã da Senhora que concebe, ou seja, de Nossa Senhora da
Conceição.
Sem grandes registos dos seus
primeiros anos de História, até porque nunca se realizaram naquele espaço
escavações arqueológicas de largo espectro que permitissem conhecer
detalhadamente o que ali se passou ao longo dos muitos milénios de vida que o
lugar conheceu, Santa Eufémia de Sintra volta a surgir na historiografia
medieval quando o cruzado Osberno descobriu o espaço e a fonte de água que descreve
no seu relato sobre a Conquista de Lisboa como sendo rica em propriedades
curativas.
Embora não existindo vestígios
dessa época, presume-se que a primitiva capela que terá existido no local será
desta época, eventualmente ocupando o mesmo lugar onde em momentos anteriores
terão existido espaços sagrados com outros cultos e diferentes formas de Fé.
Já no Século XVIII, por ordem do
Capitão Francisco Lopes e Azevedo, a aparição no local da própria Santa Eufémia
terá sido a razão que determinou a reedificação do templo medieval, readaptando
a sua zona de banhos e reforçando o culto que se prolongou até à actualidade.
E sublinhando o carácter místico
do espaço, quando o romantismo do Século XIX se impõe, nova intervenção é
efectuada no espaço, promovendo a sua identidade estética e transformando-o
basicamente naquilo que ele é actualmente. A lápide colocada sobre a porta principal
da capela, indicando que as obras foram mandadas fazer anonimamente por um “estrangeiro
devoto”, reforça esse secretismo mítico que o investigador Vítor Manuel Adrião
atribui como possível obra do Rei Dom Fernando II, marido da Rainha Dona Maria
II e membro da linhagem Saxe-Coburgo-Gotha do Norte da Europa.
Foi o Rei Consorte, aliás, quem
recuperou cenicamente a Serra da Sintra, reconstruindo o antigo eremitério da
Pena e construindo ali o Palácio que hoje é ex-libris essencial de qualquer
visita sintrense. A sua reinterpretação do espaço, em linha com a sua formação
cultural de base germânica, é a principal responsável pela recuperação de
grande parte da sua lendária sacralidade.
A lenda de Santa Eufémia, com
todos os traços de uma intemporalidade que é transversal a estas histórias,
carrega consigo os arquétipos mais essenciais do pensamento cultural e
religioso de Portugal.
Rezam as histórias que a tradição
oral sintrense perpectuou, que naquele local terá vivido uma antiga princesa de
nome Eufémia. No auge da sua juventude, e no fulgor romântico dos seus verdes
anos, a Princesa Eufémia apaixonou-se por um rapaz pobre e humilde que vivia
nas redondezas. E seu pai, austero do alto do seu poder, determinou a proibição
daqueles amores, gerando junto dos nubentes um profundo desgosto que no caso do
rapaz terá degenerado numa doença grave a ponto de colocar em risco a sua
própria vida. A princesa, incapaz de lidar com a morte provável do seu amado,
lembra-se de o levar à fonte ali existente e de o banhar nas águas benignas que
tradicionalmente curavam todos aqueles que as utilizavam. E o resultado não se
fez esperar. O rapaz recuperou rápida e totalmente das suas maleitas e a princesa,
para que ninguém se esquecesse do acontecido, marcou com o seu pé uma das rochas
existentes na fonte, deixando uma marca que ali se mantém até à actualidade.
Classificado como Imóvel de
Interesse Público desde 2002, o Alto de Santa Eufémia em Sintra é hoje um
importante ponto de peregrinação fazendo parte dos calendários principais da
Igreja Católica Romana. A romaria popular que ali acontece durante o mês de
Maio, remetendo para as suas origens ritualísticas de índole vegetal,
transporta-nos directamente para as linhas Marianas de pensamento,
profundamente arreigadas no imaginário colectivo nacional.
sexta-feira
A Igreja de São João de Alporão em Santarém
por João Aníbal Henriques
No final do Século XII, quando
Portugal vivia ainda no ímpeto massacrante da sua afirmação nacional, a região
do Ribatejo e a Cidade de Santarém foram peça-chave na definição conclusiva das
fronteiras e na capacidade de consolidação do País recém-nascido.
No seu esforço para crescer, as zonas
da raia assumiram especial importância, não só porque estrategicamente eram
pontos vulneráveis a possíveis ataques, como também porque eram zonas de
transição que impunham um controle defensivo arreigado e funcionavam como cadinho
para o permanente esforço de crescimento territorial.
Santarém, com a sua História
antiga e uma tradição assente na capacidade permanente de readaptação política,
social e cultural, foi sempre estrategicamente essencial para a formulação dos
equilíbrios que permitiram impor Portugal como nação incontestável na Europa de
então.
De especial importância, até porque
a sua situação junto ao Rio Tejo lhe dava um estatuto de redobrado relevo no contexto
dos núcleos urbanos de Portugal, Santarém estruturou-se urbanisticamente a
partir das vicissitudes da sua História política, ganhando desde sempre a capacidade
de adaptabilidade necessária para cumprir com sucesso esse desiderato.
A Igreja de São João de Alporão é
disso exemplo paradigmático.
Com uma História longa e quase
milenar, foi-se construindo e reconstruindo ao sabor das vicissitudes diversas
que a foram afectando. A sua espacialidade, muito condicionada pela posição estratégica
que assume na entrada do perímetro amuralhado da cidade, foi determinante na
concepção dos variados modelos defensivos da capital escalabitana, dela
dependendo as estruturas militares que existiam à sua volta e que foram
desaparecendo ao longo dos séculos.
Modelo híbrido em termos
arquitectónicos, porque representa de forma evidente uma posição de charneira
entre o românico e o gótico, pertenceu nas suas origens à Ordem de São João do
Hospital, na senda das suas funções de reconquista do território Cristão.
O seu pórtico de entrada, assente
em arcaria de origem românica, confere-lhe o peso da vetustez da sua longa História.
Mas a rosácea, encabeçando a transição para o goticismo iluminado, confere-lhe
uma certa singeleza que em contraste nos remete para os desafios mais inquietantes
daquele período da História de Portugal.
Havendo provavelmente alguma
explicação para este tão vincado carácter duplo do monumento escalabitano, o
certo é que o abandono da estrutura original românica e o assumir das
orientações góticas na redefinição do seu desenho, dota esta igreja de uma aura
quase mística no contexto da arquitectura religiosa de então. Obras inacabadas
na sua versão inicial, ou eventualmente um qualquer acidente e/ou cataclismo
que tenha obrigado à sua recuperação, o certo é que São João do Alporão se
define a partir desta duplicidade estética que afecta de forma indelével a
cenografia estética da Cidade de Santarém.
Antes de se transformar no notável
Museu de Arqueologia que agora é, a Igreja de São João de Alporão foi adaptada
a armazém de mercadorias e posteriormente a teatro, depois da extinção das
ordens religiosas ter implicado a sua venda em hasta pública a particulares.
Classificada como Monumento
Nacional desde 1910, a Igreja de São João de Alporão nunca perdeu o seu valor
simbólico na estruturação religiosa do Ribatejo, tendo ajudado a redefinir a
linha de pensamento de índole Cristã quando toda a região recuperou em
definitivo a estabilidade política necessária para esse efeito.
quinta-feira
A Igreja de Nossa Senhora da Graça em Santarém
por João Aníbal Henriques
Magnificamente implantada no
coração da Cidade de Santarém, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, comummente
designada como Igreja de Santo Agostinho, é um dos mais importantes e
impactantes monumentos religiosos do Ribatejo.
O edifício, originalmente
construído no Século XIV, é um dos mais belos exemplares da arquitectura gótica
em Portugal. Com as suas três naves, iluminadas de forma sublime por um
conjunto de janelas em ogiva, apela de forma profunda à concepção mais
iluminada de Deus, aqui entendido na inteira perfeição que os raios de luz
projectam no espaço.
Na fachada principal, num misto
de harmonia e profundidade cénica, o gótico flamejante relembra a audácia
expressa igualmente em Santa Maria da Batalha, num cruzamento que sublinha a
arcaria da porta com a enorme rosácea duplamente significante no
estabelecimento de uma relação profunda com quem vê o monumento a partir da rua
mas, sobretudo, para quem dele frui interiormente.
O espaço onde o edifício foi construído,
simbolicamente relevante no contexto da geometria urbana da Cidade de Santarém,
pertencia ao primeiro Conde de Ourém, D. João Afonso Telo de Meneses, e a sua
mulher D. Guiomar de Vilalobos, que o doaram aos padres mendicantes de Santo
Agostinho. Desta maneira, também com um cunho simbólico de relevo, se
estabelece a relação entre a fina-flor da aristocracia escalabitana e a
deambulante pregação dos frades que aqui se estabeleceram, multiplicando de
forma exponencial o apelo à iluminação celestial e estabelecendo uma verdadeira
escada de acesso ao céu.
Nesse prisma, é de primordial interesse
a interpretação escatológica que deriva do monumento, assente na primeira
concepção de um espaço que pretende salvar quem a ele acorre em busca de um laivo
de esperança e discernimento…
A Igreja de Nossa Senhora da
Graça, nesta vertente de eixo religioso do coração Ribatejano, evoca assim a
função mais hermética da Igreja Católica Romana, que assume o apostolado como
um desígnio sagrado e, dessa maneira, procura em permanência as estratégias
mais céleres para alcançar o sucesso no cumprimento desse desiderato.
Caldeirão alquímico no sentido mais lato da forma que dele emerge, o espaço deste templo organiza-se à semelhança de um portal, orientando o fiel no seu caminho – sempre pessoal e em adoração a Deus – para o céu.
Aproveitada como panteão
privativo da família Telo de Meneses, estando ali sepultados em túmulo duplo o
casal de fundadores, a Igreja da Graça é ainda espaço de repouso eterno para
Pedro Álvares Cabral, o assumido achador do Brasil.
Pela sua forma, pujança e
qualidade histórica e artística, mas também pelo profundo simbolismo que
carrega, a Igreja de Santa Maria da Graça, em Santarém, é motivo de grande
interesse para todos os que se aventurem na árdua tarefa de conhecer e
compreender Portugal.
João Brandão - de Midões ao Limoeiro
por João Aníbal Henriques
Nos escolhos do tempo, perdidos
nos interstícios que vão marcando as sucessivas eras, escondem-se histórias que
certamente foram fadadas pelo destino. Insensíveis aos seus protagonistas e aos
anseios que dão forma aqueles que as viveram, parecem ser vida com vida própria
desenovelando um fio emaranhado que junta sem cerimónia os sonhos, as
necessidades do dia-a-dia e os devaneios dos seus protagonistas.
Foi isso que aconteceu com o
mítico João Brandão, o denominado “Terror das Beiras”, que em meados do Século
XIX se transformou numa das mais extraordinárias lendas do provinciano Português.
Em plena guerra civil, quando irmãos se viraram contra irmãos, João Victor da
Silva Brandão nasceu em Midões, actual Concelho de Tábua, em março de 1825.
Filho de Manuel Rodrigues Brandão, serralheiro de origens humildes, João
Brandão depressa deu mostras de grande apetência pela vida pública e pelos
interesses dos seus concidadãos.
Profundamente liberal nas suas
convicções, marcadas pelo clima de guerrilha permanente em que nas Beiras se
viveram as conturbações da guerra, Brandão precisou de ajuda para abrir os seus
horizontes de vida e para almejar a influência política com a qual sempre
sonhara. Sonhador, sempre enlevado pela ideia do belo, apaixonou-se por D. Ana
Eugénia de Jesus Correia Nobre, filha dilecta de uma das muitas famílias aristocráticas
que habitavam naquele recanto idílico de Portugal e portadora de um nível de
riqueza que contrastava de forma evidente com os parcos recursos da família
Brandão.
O seu padrinho político, D. Roque
Ribeiro de Abranches Castello Branco, futuro Visconde de Midões, foi presença e
desígnio permanente na sua vida, tendo-lhe legado de forma muito evidente o seu
fervoroso apoio à causa liberal e aos tempos novos que eles acreditavam terem
chegado a Portugal. Esta figura tutelar, que ajudará o jovem João Brandão a
comunicar de forma próxima com os principais inspiradores do poder lisboeta,
surge em linha com o enorme apoio que o seu pai, Manuel Brandão, dá à causa
liberal durante o tempo da Guerra Civil. Com o regresso do Rei Dom Miguel
depois da assinatura da Carta Constitucional, a Família Brandão pega em armas
contra o absolutismo e dirige nas beiras um enorme movimento de contestação ao
absolutismo professado pelo monarca.
Na espiral de violência em que
cresceu, João Brandão pôs e dispôs das suas convicções não olhando a meios para
garantir o cumprimento dos seus fins. E, se na liberalidade que se instalou em
Portugal, tudo parecia acertar-se para fazer dele um dos maiores do reino, a
incerteza dos muitos infortúnios que determinaram a criação de uma fama de
bandido da qual não mais se conseguiu livrar.
Alvo de um processo movido contra
si por muitos daqueles que com ele tinham trilhado os caminhos da vida, até
porque no Portugal de então as voltas e reviravoltas políticas determinaram um
regime caótico no qual o terror e o medo dominavam o dia-a-dia, João Brandão
acabou preso, julgado e condenado pelo crime terrível do assassínio do Padre
Portugal.
Sempre clamando pela sua inocência,
Brandão esteve preso no Limoeiro, em Lisboa, de onde foi enviado para Angola,
já em 1870, como desterrado, e onde morreu uma década mais tarde.
Figura polémica no seu tempo, João
Brandão tornou-se uma figura problemática para a História. Porque, para além do
ânimo arreigado que sempre demonstrou, e que o envolveu na aura lendária que o
acompanha até hoje, foi também um homem de valores e de princípios que colocou
à frente daqueles que são os valores basilares da sociedade de então.
João Brandão, o Bandido das Beiras, é santo para uns e bandido para outros. E hoje, 142 anos depois da sua morte, não é ainda possível clarificar de forma definitiva os reais contornos da sua vida política, nem a importância que ele efectivamente teve na sua área geográfica de influência.

















